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Ansiedade e Valores
Ningum pode viver sem ovaliar. Avaliar  criar; Ouam, 6 criadores! Sem avaliao, a noz da existncia  oca. Ouam, 
criadores! 
 NIETZSCHE 
A QUALIDADE que distingue a ansiedade humana decorre do fato do homem ser o animal avaliador, o ser que interpreta 
sua vida e universo em funo de simbolos e significados, e que identifica estes com a sua existncia como um Eu.  este o 
tema que vamos explorar no presente captulo. Como Nietzsche observou, O homem devia ser cognominado, o 
avaliador.  a ameaa a esses valores que provoca ansiedade. Com efeito defino a ansiedade como a apreenso 
sugerida por uma ameaa a algum valor que o indivduo reputa essencial  sua existncia como um Eu. A 
ameaa pode ser dirigida  prpria vida fsica, isto , a morte; ou  vida psicolgica, isto , a perda de liberdade. Ou pode 
ser a algum valor que a pessoa identifica com a sua existncia como um Eu: patriotismo, amor a uma pessoa especial, 
prestgio entre os pares, devoo  verdade cientfica ou s crenas religiosas. 
Um exemplo clssico e dramtico disso  visto no comentrio do simplrio Tom, a quem Wolf e Wolff 1 estudaram durante 
vrios meses, em seu significativo trabalho sobre ansiedade e funes gstricas, no New York HospitaL Os leitores do 
relatrio recordar-se-o de que Tom e sua esposa ficaram despertos toda uma noite, preocupados sobre se o emprego de 
Tom no labo-
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ratrio do hospital seria duradouro ou se ele teria de voltar a viver com o subsidio de desemprego do Governo. Na manh 
seguinte, a leitura da atividade gstrica para a ansiedade de Tom foi a mais elevada de todas as encontradas durante esses 
estudos. O ponto significativo, para os mdicos,  o comentrio de Tom: Se eu no puder sustentar a minha famlia, 
prefiro saltar logo da ponte do cais. A ameaa subjacente nessa grande ansiedade no era, pois, a de privao fsica  Tom e 
sua famlia poderiam ter se mantido com a assistncia social  mas era, antes, uma ameaa a um status que Tom, como 
tantos homens em nossa sociedade, considerava ainda mais importante do que a prpria vida: a capacidade de cumprir o 
seu papel como provedor do sustento da prpria famlia de classe mdia. A perda desse status seria equivalente  
existncia como pessoa. 
Observamos exemplos semelhantes na rea do sexo. A satisfao sexual era si mesma , evidentemente, um valor. Mas, a 
todo instante, ao lidar com pacientes em psicoterapia, verificamos que a satisfao fsica , em si mesma, apenas uma 
pequena parcela da questo, visto que uma pessoa ser lanada num estado de conflito e ansiedade quando sexualmente 
rejeitada por um parceiro mas no por um outro.  bvio que outros elementos  prestigio, ternura, compreenso pessoal  
conferem  experincia sexual com um determinado parceiro um valor que outras no possuem.  razovel dizer, de 
passagem, que quanto menos madura a pessoa for, mais a satisfao simplesmente fisiolgica encerra um valor e menos 
diferena faz quem proporciona a satisfao; ao passo que quanto mais a pessoa for madura e diferenciada, mais outros 
fatores tais como a ternura e o relacionamento pessoal com a outra pessoa determinar o o valor da experincia sexual. 
A morte  a mais bvia ameaa geradora de ansiedade, visto que, exceto no caso de se acreditar na imortalidade, o que no  
comum em nossa cultura, a morte representa a anulao final da nossa existncia como Eu. Mas imediatamente observamos 
um fato muito curioso: algumas pessoas preferem morrer a renunciar a algum outro valor. O cerceamento da 
liberdade psicolgica e espiritual foi, freqentemente, uma ameaa maior do que a prpria morte para muitas pessoas, sob 
as ditaduras da Europa. Liberdade ou morte no , necessariamente, urna atitude histrinica ou prova de uma atitude 
neurtica. Com efeito, h motivos para acreditar, como observaremos mais adiante, que pode representar a forma mais 
madura de comportamento distintamente humano. De fato, Nietzsche, Jaspers e outros dos existencialistas mais 
profundos sublinharam que a vida 
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fsica, em si mesma, no  satisfatria nem significativa enquanto uma pessoa no puder conscientemente 
escolher um outro valor que ela considere mais caro do que a prpria vida. 
Qual  a origem desses valores que, quando ameaados, resulta em ansiedade? Obviamente, o primeiro valor 
do beb so os cuidados, alimento e amor que recebe de sua me ou substitutos parentais; uma ameaa a esse 
valor, sendo, de fato, uma ameaa  prpria existncia da criana, d origem a uma profunda ansiedade. Mas,  
medida que o amadurecimento se desenrola, os valores so transformados. Convertem-se em desejo de 
aprovao pela me, por exemplo, depois, em xito aos olhos dos pais ou dos pares e, mais tarde, de status 
em termos culturais; e, finalmente, no adulto maduro, os valores podero se converter em devoo  liberdade, 
a uma crena religiosa ou  verdade cientficas. No estou propondo isto como uma escala exata de 
amadurecimento; pretendo apenas ilustrar, em termos gerais, que o amadurecimento envolve uma 
transformao contnua dos valores originais identificados com a existncia de cada um e que, se ameaados, 
geram ansiedade; e que, no ser humano normal, esses valores assumem um carter cada vez mais simblico. 
 um erro pensar nesses valores subseqentes como sendo, meramente, a extenso do valor original de 
preservao dos cuidados e do amor maternos; ou pensar que todos os valores so, to-somente, diferentes 
disfarces da satisfao de necessidades primrias. Manifestam-se na pessoa em desenvolvimento capacidades 
que a transformam em uma nova gestalt; sobre o padro da evoluo emergente, a pessoa em processo de 
amadurecimento vai continuamente desenvolvendo novas capacidades a partir das antigas, novos smbolos e 
valores sob uma nova forma. Certo, quanto mais a ansiedade de um indivduo for neurtica, mais ele estar, 
provavelmente, tentando satisfazer, ano aps ano, os mesmos valores que ele albergou em fases mais antigas; 
como  sabido atravs de tantos casos clnicos, ele ainda busca, repetida e compulsivamente, o desvelo e o 
amor maternos. Mas, quanto mais saudvel a pessoa for, menos os seus valores como adulto podem ser 
compreendidos como a soma de suas necessidades e instintos anteriores. 
A mais importante capacidade emergente no ser humano  o relacionamento do Eu. Principia algures depois 
dos primeiros meses de vida e, provavelmente, j est razoavelmente bem desenvolvida na criana por volta 
dos dois anos de idade. Da em diante, os valores do amor e assistncia assumem um novo carter: eles deixam 
de ser, simplesmente, algo recebido, pois a criana pasta a responder-lhes com um certo grau de conscincia 
de si mesma. Ela pode agora aceitar o carinho da me, desafi-lo, us-lo para vrias formas de exigncias de 
poder ou o que seja. Um paciente, numa clnica, informou que tinha aprendido, em tenra idade, a colocar as 
mos contra a parede e empurrar a cadeira de beb, de modo a desequilibr-la, para que seus pais a 
amparassem na queda. O valor envolvido, neste caso, no era a auto-conservao, isto , ser salvo de cair no 
cho (ele tinha adestrado to bem seus pais que essa contingncia nunca ocorreu). O valor assim obtido era, 
antes, a satisfao e a segurana envolvidas em seu poder de obrigar seus pais a ficarem num permanente 
estado de alerta, prontos a saltar em sua ajuda para evitar o tombo. 
Podemos ver como o valor do amor tambm desenvolve uma nova caracterstica quando observamos que, na 
pessoa madura  um adulto com um determinado grau de autonomia  alguma escolha, alguma afirmao 
consciente, alguma participao deliberada,  necessria para amar e aceitar amor, caso se pretenda que a 
experincia amorosa gere plena satisfao. Nesse caso, o valor reside na capacidade de dar  outra pessoa, 
tanto quanto a de receber. Esse indivduo maduro poder experimentar uma ansiedade mais grave se a sua 
oportunidade de dar amor a outra pessoa for ameaada. 
Assim, para compreender a origem dos valores  as ameaas aos quais, como vimos, causam ansiedade  
devemos evitar dois erros. O primeiro,  o erro de no relacionar o valor com as mais remotas necessidades de 
amor e assistncia. Mas o segundo erro  pensar que a questo  apenas isso e esquecer o fato de que as 
qualidades emergentes na pessoa tornam o valor ameaado em cada fase do desenvolvimento genuinamente 
novo. 
EXAMINEMOS agora essa capacidade distinta de auto-relacionamento do ser humano, uma capacidade que  
crucialmente significativa para a compreenso da ansiedade humana.  uma capacidade do homem situar-se 
fora de si mesmo, saber que  tanto o sujeito como o objeto da experincia, ver-se como a entidade que est 
atuando no universo de objetos. 2 Essa qualidade mpar que distingue o homem do resto da natureza foi 
descrita, como indicamos antes, de vrias maneiras, por Goldstein e outros. Em seus primeiros trabalhos, 
Hobart Mowrer, seguindo os passos de Korzybski, chamou-lhe a qualidade de vinculao tem- 
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poral do ser humano: a capacidade de vincular o passado ao presente como parte do nexo causal total em que os 
organismos vivos se comportam (agem e reagem)  a essncia da mente e da personalidade, indistintamente. Howard 
Liddeil informa-nos que as suas ovelhas podem guardar o tempo durante cerca de dez minutos, os seus ces durante meia 
hora. Mas o ser humano pode conservar o tempo at o futuro distante  pode fazer planos para dcadas ou sculos; e, 
acrescentaramos ns, ele  capaz de preocupar-se com o futuro e sofrer ansiedade, na anteviso de sua prpria morte final. 
Isso faz de ns os mamferos histricos que podem olhar o antes e o depois, e ansiar pelo que no . Compreendendo o 
passado, podemos moldar e, em certa medida, influenciar o futuro, A neurose, como indicou Lawrence Kubie, tem sua 
origem na distoro dessas funes simblicas, como resultado de uma dicotomia entre os processos conscientes e 
inconscientes que se iniciam nas primeiras fases do desenvolvimento de cada criana humana. 
Foi Adolf Meyer, como Sullivan sugere, quem sustentou que o ser humano opera numa hierarquia de organizao e que as 
funes fisiolgicas devem ser vistas como subordinadas s funes de integrao e, sobretudo,  capacidade do homem 
para usar smbolos como instrumentos. a O que  importante, neste ponto, para compreender a ansiedade,  que o homem, 
o utilizador dos smbolos, interpreta a sua experincia em termos simblicos e protege esses smbolos como valores que, se 
forem ameaados, do origem a uma profunda ansiedade. Assim, a compreenso da ansiedade nunca pode ser separada dos 
simbolos ticos, os quais constituem um aspecto do meio normal do ser humano. Atravs dessa distinta capacidade social 
ver-se a si prpria como os outros a vem, de imaginar-se empaticamente na posio de seus semelhantes, sejam eles 
familiares ou estranhos, a pessoa pode orientar as suas decises  luz de valores a longo prazo, os quais so a base da tica 
e, portanto. a base da ansiedade moral. 
Creio ser muito importante, no trabalho experimental com seres humanos, tanto na rea da ansiedade como em outras, 
definir o contexto da pessoa que est sendo estudada; quer dizer, indagar que significado simblico ela d  situao e quais 
so os seus valores no experimento, nesse momento particular. Ou, se o experimentador est isolando uma determinada 
reao do ser humano auto-consciente, isto tambm deve ser evidenciado e definido. Pois o significado real dos dados 
neurofisiolgicos, assim como de dados de outras espcies, s ser compreendido  medida que for visto no contexto da 
pessoa auto-consciente, isto , da pessoa como avaliadora. 
Emprego os termos smbolos e valores, diga-se de passagem, no sentido da quintessncia da experincia. So uma 
sntese da maioria dos relacionamentos e satisfaes reais; e, assim, uma ameaa a um valor simblico,, como a bandeira 
ou o status de Tom, pode ter um tremendo poder de provocar ansiedade. 
Os valores de um indivduo e a sua ansiedade, como vimos no ltimo capitulo, esto condicionados pelo fato dele viver 
numa determinada cultura, num particular momento do desenvolvimento histrico dessa cultura. Isso no ocorre, em 
absoluto, apenas porque a pessoa cresceu, eventualmente, entre outras e, por conseguinte, reflete as opinies delas mas 
porque  da prpria essncia da natureza do homem interpretar os seus valores no contexto da sua relao com outras 
pessoas e das expectativas destas. Tom, que acreditava que tinha de ser um macho auto-sustentvel da classe mdia, estava 
se validando pelos valores que tm sido dominantes na sociedade ocidental desde o Renascimento. Como Fromm. Kardiner 
e outros deixaram bem claro h muito tempo, o valor dominante desde ento tem sido o prestgio competitivo, em termos 
de trabalho e xito financeiro. Se isso  conseguido, a pessoa sente-se realizada como pessoa e a ansiedade  aliviada; caso 
contrrio, est sujeita a uma poderosa ansiedade e perde o sentido de ser um Eu. 
Entretanto, um fato curioso surgiu nas ltimas duas dcadas: esse valor competitivo dominante foi, ao que parece, 
invertido. David Riesman diz-nos, em A Multido Solitria, que os jovens raramente alimentam, hoje em dia, o 
objetivo de sucesso competitivo; j no querem ser os primeiros na escola mas, antes, preferem situar-se algures no peloto 
da frente. Eis que o valor dominante deixou de ser, pois, ultrapassar o homem que vai logo na frente mas, antes, ser como 
todos os outros  isto , conformidade. Portanto, a pessoa valida-se quando est ajustada ao rebanho; o que a torna presa da 
ansiedade  ser diferente  destacar-se. Este desenvolvimento fez parte dos problemas especiais, em dcadas recentes, do 
anti-intelectualismo, das caadas s feiticeiras, da desconfiana a respeito da pessoa original e criadora, e da tendncia geral 
para evitar a ansiedade assumindo uma colorao protetora. 
Chegamos agora  forma especial da ansiedade chamada solido. Freud, Rank e outros sugeriram que toda ansiedade pode 
ser, no fundo, uma ansiedade de separao. E, assim, a solido  a conscincia da separao  pode muito bem resultar na 
mais dolorosa forma consciente e imediata da ansiedade. Os 
lores culturais do conformismo, o ajustamento do tipo radar que reflete nos seus sinais os da multido  sua volta, esto 
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relacionados com a preponderncia da solido em nossos dias, sobre a qual Sullivan e Fromm-Reichmann 
escreveram to esclarecedoramente. A solido  uma experincia comum daqueles que se conformam, pois 
enquanto que, por um lado, so impelidos  conformidade por causa da solido, por outro lado, a validao do 
Eu pela procura de se tornar igual a todo o mundo reduz no indivduo o seu sentido do Eu e a sua experincia 
de identidade pessoal. O processo favorece o vazio interior, causando assim uma solido ainda maior. 
Poderemos dizer que, nessa passagem da competio para o conformismo, o valor dominante e, portanto, o 
locus para a gnese da ansiedade, desde o Renascimento, mudou? Sim, em parte. Por certo ama das razes 
mais claras para o predomnio da ansiedade em nossa cultura  o fato de que vivemos numa poca em que 
quase todos os valores sociais esto em radical transformao, quando um mundo est morrendo e um mundo 
novo ainda no nasceu. 
Mas no haver urna explicao mais especifica que justifica tanto o valor do xito competitivo, dominante 
desde o Renascimento at uma poca recente, e seu atual e evidente oposto; o conformismo? No decorrem 
ambos de uma s causa a saber, o descalabro das relaes entre o moderno homem ocidental e a natureza? 
Desde o Renascimento, o homem ocidental tem-se vangloriado do seu propsito d adquirir um crescente 
poder sobre a natureza. Ele transformou o amplo conceito da Razo dos sculos XVII e XVIII na razo 
tcnica dos sculos XIX e XX, e dedicou-se  explorao da natureza. Desde a 
dicotomia cartesiana, no sculo XVII, entre experincia subjetiva e mundo objetivo, o 
homem ocidental tratou, progressivamente, de ver a natureza como algo inteiramente 
separado dele: e pensou que poderia estudar melhor a natureza e conquist-la se a 
fizesse inteiramente objetiva e impessoal. 
A profunda solido e o isolamento que isso acarretou j fora pressentido por Pascal, 
no sculo XVII, que disse: Quando considero o breve prazo da minha vida, tragado 
pela eternidade que se estende antes e depois de mim, o pequeno espao que eu ocupo 
ou mesmo vejo, engolfado na imensidade infinita de espaos que no conheo e que 
no me conhecem, fico temeroso e surpreendo-me ao ver-me aqui e no ali; pois no 
existe razo alguma para que eu esteja aqui e no ali, agora e no antes ou depois. 
Como os homens modernos foram bem sucedidos em validar-se, durante vrios sculos, pelo-, poder sobre a 
natureza, a solido e o isolamento inerentes nessa situao s se generalizara no nosso sculo XX. 
Particularmente com o advento da bomba atmica, os leigos sensveis, assim como os cientistas, comearam a 
sentir a solido de serem estranhos no universo; e isso fez com que muitos homens ocidentais,  semelhana 
de Pascal, ficassem temerosos. Assim, a nossa solido e ansiedade contempornea  mais profunda do que a 
alienao do mundo natural. 
Mas que dizer da natureza humana, que tambm  uma parte da natureza? A resposta 6 que os mtodos que 
foram to magnificamente coroados de xito para medir e dominar a natureza inanimada foram aplicados  
natureza humana no sculo 
XIX. Concebeu-se o homem como objeto a ser pesado, medido e analisado. E era impossvel evitar, portanto, 
ver o homem como natureza inanimada, como algo impessoal. A natureza humana tornou-se algo sobre a qual 
tambm era preciso adquirir poder, algo a manipular e a explorar  tal como exploramos o carvo em nossas 
montanhas e o ao que convertemos em carrocerias para Os nossos automveis. 
Assim, o homem moderno lanou-se numa guerra no-declarada contra si prprio. A conquista de ns 
prprios do sculo XIX vitoriano converteu-se em manipulao de ns prprios no sculo XX. O dilema 
humano do relacionamento do sujeito com o objeto, que descrevemos no captulo 1, perverteu-se e o sujeito, 
Eu, passou a explorar o resto da pessoa, o objeto impessoal. Isto criou um crculo vicioso  que teve como 
um de seus resultados o congestionamento das nossas clnicas psicolgicas. O circulo vicioso s pode 
encontrar alivio, desde que permanea nessa forma deteriorada do dilema, na diminuio do sujeito, isto , na 
reduo da conscincia. Mas, ai de nsl, no podemos alimentar a esperana de que, a longo prazo, a cura nos 
chegue de mais aplicaes da mesma doena que desejamos curar. 
H muitos indcios de um movimento, em nossa sociedade, favorvel  recuperao de uma relao indgena 
com a natureza. A Fsica moderna participa desse movimento. Como disse Werner Heisenberg, a essncia da 
Fsica moderna  que a concepo copernicana de que a natureza deve ser estudada l fora, inteiramente 
separada do homem, deixou de ser sustentvel; a natureza no pode ser compreendida  parte do 
envolvimento subjetivo do homem e vice-versa.  O novo interesse do Ocidente pelo pensamento oriental, em 
seus aspectos saudveis, aponta na mesma direo. O pensamento oriental nunca sofreu 
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a nossa diviso radical entre sujeito e objeto, entre Eu-a-pessoa e o mundo l fora; e, por conseguinte, 
escapou  especial caracterstica ocidental de uma separao da natureza e conseqente solido. 5 Seja como 
for, no podemos compreender a ansiedade do homem ocidental moderno se no o virmos em sua 
vinculao histrica, como herdeiro de muitos sculos de radical diviso de sujeito e objeto, com sua 
conseqente relao desintegrada com a natureza. 
Como a ansiedade  a reao a uma ameaa aos valores que o indivduo identificou com a sua existncia, 
ningum pode escapar  ansiedade,, dado que nenhum valor  inexpugnvel. Esta  a inevitvel ansiedade 
normal. Alm disso, os valores esto sempre em processo de mudana e reforma. A nica sada evidente  
embora frustadora do eu  para a ansiedade que ocorre numa era de transformao de valores  cristalizarmos 
os nossos valores em dogmas. E o dogma, seja da variedade religiosa ou cientfica,  uma segurana 
temporria adquirida  custa da nossa renncia  oportunidade de nova aprendizagem e novo progresso. O 
dogma conduz  ansiedade neurtica. 
DEVEMOS AGORA diferenar a ansiedade neurtica da normal, visto que, sem um conceito de ansiedade 
normal, estamos impossibilitados de discernir a sua forma neurtica, A ansiedade normal  uma ansiedade 
proporcional  ameaa, no envolve represso e pode ser enfrentada construtivamente, no nvel consciente 
(ou pode ser aliviada se a situao objetiva for alterada). A ansiedade neurtica, por outro lado,  uma reao 
desproporcional  ameaa, envolve represso e outras formas de conflito intrapsquico, e  governada por 
vrias espcies de bloqueios da atividade e da conscincia. A ansiedade relacionada com a solido do homem 
em posio preeminente e a solido do corredor de distncia, de que nos fala o cinema, pode ser vista como 
uma ansiedade normal. A ansiedade que decorre de uma atitude conformista, para escapar a essa solido,  a 
transformao neurtica da ansiedade normal original. 
Na realidade, a ansiedade neurtica desenvolve-se quando uma pessoa foi incapaz de enfrentar a ansiedade 
normal, numa poca de crise real em seu crescimento e de ameaa aos seus valores. A ansiedade neurtica  o 
resultado final da ansiedade normal previamente evitada. 
A ansiedade normal  perfeitamente bvia nos progressos da individuao, os quais ocorrem em todas as 
fases do desenvolvimento de uma pessoa. A criana aprende a caminhar e abandona a segurana passada do 
cercado; sai para a escola; na adolescncia, aproxima-se do sexo oposto; depois, sai de casa para ganhar a 
vida, casa e, finalmente, ter de separar-se de seus valores no leito de morte. No pretendo dizer com isto que 
tais eventos sejam, necessariamente, crises reais, embora sejam sempre potenciais; o que pretendo  indicar 
que todo crescimento consiste na renncia, geradora de ansiedade, de valores passados,  medida que os 
transformamos em valores mais amplos. O crescimento, e com ele a ansiedade normal, consiste na renncia  
segurana imediata, a bem de objetivos mais extensos, sen do a morte o passo final nessa seqncia. Dai que 
Paul Tillich tenha insistido, eloqentemente, em seu livro A Coragem de Ser, que a ansiedade normal  
sinnimo de finitude do homem. Cada ser humano sabe que morrer, embora ignore quando; prev a sua 
morte atravs da conscincia de si mesmo. Enfrentar essa ansiedade normal de finitude e morte pode ser, de 
fato, o mais eficaz incentivo de um indivduo para tirar o mximo proveito dos meses e anos, antes que a morte 
o abata. 
A transformao de valores e o fazer frente  ansiedade concomitante constituem um aspecto da criatividade, 
O homem  o avaliador que, no prprio ato de avaliar, est empenhado em moldar o seu mundo, adequando-se 
ao seu meio e fazendo com que o seu meio se lhe adeque. Essa inter-relao da transformao de valores e da 
criatividade indica por que motivo a criatividade sempre foi considerada, desde o mito de Prometeu at hoje, 
em inevitvel ligao com a ansiedade. 
Desejo sublinhar trs implicaes para a terapia, nestas consideraes. 
Em primeiro lugar, a meta da terapia no  libertar o paciente da ansiedade. , antes, ajud-lo a libertar-se da 
ansiedade neurtica, a fim de que possa fazer frente,, construtivamente,  ansiedade normal. Com efeito, a 
nica maneira dele conseguir a primeira coisa  fazer a segunda. A ansiedade normal, como j vimos,  uma 
parte inseparvel do crescimento e da criatividade; o eu torna-se mais integrado e mais forte,  medida que as 
experincias de ansiedade normal so enfrentadas com xito. Da a famosa declarao de Kierkegaard: Eu diria 
que aprender a conhecer a ansiedade  uma aventura que todo e qualquer homem tem de enfrentar se no 
quiser cair na perdio, por no 
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conhecer a ansiedade ou por afundar-se nela. Portanto, aquele que aprendeu corretamente como ser ansioso 
aprendeu a coisa mais importante. 
Em segundo lugar, as nossas consideraes implicam srias questes sobre o uso de drogas para aliviar a 
ansiedade. (Excetuo os casos em que a ansiedade, se no for aliviada, conduzir a um colapso mais grave, ou a 
necessidade de alvio at atingir o ponto em que a psicoterapia  possvel.) O efeito nocivo do uso geral de tais 
drogas  bvio, pois eliminar a ansiedade , em princpio, eliminar a oportunidade de crescimento, isto , a 
possibilidade de transformao de valores, de que a ansiedade  o aspecto inverso. Na mesma ordem de idias, 
a ansiedade neurtica  um sintoma do falo de que algumas crises prvias no foram enfrentadas e remover o 
sintoma sem ajudar a pessoa a alcanar o seu conflito subjacente  priv-la do seu melhor indicador de direo 
e da motivao para o auto-conhecimento e novos progressos. 
Em terceiro lugar, este captulo implica a existncia de uma relao inversa entre a solidez do sistema de valores 
de um indivduo e a sua ansiedade. Isto , quanto mais firmes e mais flexveis forem os seus valores, mais o 
indivduo estar apto a enfrentar construtivamente a ansiedade. Mas quanto mais formos derrotados pela 
ansiedade, mais os nossos valores perdero fora. Assim, a conquista pelo paciente de valores slidos , a 
longo prazo, uma parte integrante do seu progresso teraputico. No quero com isto dizer, em absoluto, que o 
terapeuta transmita ao seu paciente valores preparados de antemo. Tampouco pretendo aliviar o paciente da 
elaborao responsvel de seus prprios valores, permitindo-lhe, simplesmente, que adote os valores do 
terapeuta. Nem a nossa argumentao alivia o terapeuta da responsabilidade de ajudar o paciente no processo 
tcnico de revelao lenta e constante das razes do seu conflito. Com efeito, isso tem de ser feito, na maioria 
dos casos, antes do paciente estar apto a chegar aos seus prprios e duradouros valores. 
Os critrios para valores maduros decorrem das caractersticas distintas do ser humano que examinamos 
anteriormente; os valores maduros so aqueles que transcendem a situao imediata no tempo e abrangem o 
passado e o futuro. Os valores maduros tambm transcendem o grupo imediato a que o indivduo pertence (o 
in-group) e se ampliam no sentido do bem da comunidade, abrangendo idealmente e em ltima instncia a 
humanidade como um todo. Apaixonei-me de dentro para fora,  proclama o jovem Orestes, aps o decisivo 
ato de autonomia, na pea de Robinson Jeffers. 
Quanto mais maduros so os valores de um homem, menos lhe importa se esses valores so literalmente 
satisfeitos ou no. A satisfao e a segurana residem na conservao desses valores pelo indivduo. Para o 
cientista genuno, a pessoa religiosa ou o artista sincero, a segurana e a confiana promanam de sua 
conscincia da devoo com que buscam a verdade e a beleza, no da descoberta de uma ou outra. 
